sexta-feira, 23 de setembro de 2016

Desinfetantes e Sanitizantes – Conceitos Básicos




Olá caros colegas. No post de hoje vou fazer uma abordagem sucinta sobre desinfetantes e saneantes, de maneira a introduzir o assunto sobre limpeza e sanitização. Este é um assunto extenso, com vários aspectos a serem abordados, e que vai render mais de um post. Vou começar com as definições básicas, que, apesar de serem básicas, é importante conhecermos os termos de modo a poder aplicar de maneira correta o produto e obter os resultados desejados.

Nomenclatura

Antisséptico: um agente que inibe ou destrói micro-organismos no tecido vivo, incluindo a pele, cavidade oral, e feridas abertas. Seu principal objetivo é matar ou inibir o crescimento de micro-organismos de maneira segura para o individuo.

Antibacteriano: um agente que reduz/mata um determinado número de bactérias. Usualmente apresentam características de desempenho inferiores aos desinfetantes.

Antimicrobiano: este termo pouco informa sobre a natureza da atividade ou micro-organismo alvo. Podem matar ou simplesmente inibir o crescimento microbiano e incluem antibióticos e agentes de tratamento anti-acne.

CIDA: sufixo usualmente acrescentado à classe de organismos para indicar um agente que lhes é letal.

Desinfetante: um agente químico usado em superfícies inanimadas e objetos para destruir fungos infecciosos, vírus e bactérias, mas não necessariamente, os seus esporos. Variam em seu espectro de atividade, modo de ação e eficácia. Esporicidas e agentes antivirais podem ser considerados uma classe especial de desinfetantes. Desinfetantes são frequentemente classificados como de alto nível, de nível intermediário e de baixo nível com base na sua eficácia contra vários micro-organismos.

Detergentes: agente químico usado para a limpeza de equipamentos ou superfícies, para remoção de matéria orgânica não desejada. Muitos detergentes possuem aditivos químicos em sua formulação que podem apresentar características desinfetantes.

Esterilizante: é um agente capaz de promover a letalidade de todas as formas de vida microbiana, incluindo bactérias, esporos bacterianos, fungos, esporos fúngicos e vírus, mas não necessariamente viróides ou príons. Esterilizantes podem ser desinfetantes que necessitam de tempo de contato maior para atingir a letalidade de endósporos bacterianos.

Fumigação: desinfecção indireta com um líquido ou gás, dentro de uma área fechada.

Germicida: outro termo genérico usado para indicar a habilidade de um agente químico em provocar a letalidade de vários tipos de organismo, semelhante ao termo “antimicrobiano”. É mais comumente empregado na América do Norte.

Sanitizante: é um termo frequentemente confundido ou usado de forma não apropriada. Refere-se a compostos que reduzem, porém não eliminam completamente o número de micro-organismos em superfícies inanimadas. Os sanitizantes não são substituídos pelos desinfetantes, por frequentemente apresentarem menor eficácia.

-Stático: este sufixo designa substancias que apenas inibem o crescimento microbiano, podendo por consideradas com espectro bacteriostático, fungistático etc.

Uma vez conhecendo bem o significado de cada classe de desinfetantes e sanitizantes, fica mais fácil a escolha do produto a ser utilizado na rotina.

Todas as classes apresentam limitações e pontos fortes. Portanto, saber a faixa da atividade e o mecanismo de ação são importantes. Abaixo seguem tabelas descrevendo estes dois pontos:

Classificação Química dos Agentes Desinfetantes
Classes Químicas
Apresentação
Faixa de Atividade
Aldeídos
2% glutaraldeído, formaldeído (como gás)
Bactericida, fungicida, micobactericida, virucida, esporicida
Álcoois
70% isopropanol
70% etanol
Bactericida, fungicida, virucida (atividade limitada)
Biguanidas
0,1% de poli-hexametileno biguanido (PHMB)
0,5% de gluconato de clorexidina
Bactericida, fungicida, virucida (atividade limitada)
Compostos clorados
0,5% de hipoclorito de sódio
Bactericida, fungicida, micobactericida, virucida, esporicida
Peroxido de hidrogênio
Solução 10-25% de peroxido de hidrogênio
Bactericida, fungicida, micobactericida, virucida, esporicida
Ácido peracético
Solução de 0,2% de ácido peracético
Bactericida, fungicida, micobactericida, virucida, esporicida
Compostos fenólicos
500µg/g de clorocresol ortonil fenol
Bactericida, fungicida, micobactericida, virucida
Compostos de amônio quaternário
200 µg/g de cloreto de benzalcônio
Bactericida (exceto em alguns tipos Gram-negativos), fungicida, virucida (atividade limitada)


Mecanismo de Atividade Desinfetante Contra Células Microbianas
Alvo
Desinfetante
Parede celular
Formaldeído, hipoclorito e glutaraldeído
Membrana citoplasmática, potencial ação em membrana
Anilinas e hexaclorofeno
Enzimas de membranas, ação na cadeia de transporte de elétrons
Hexaclorofeno
Ação em ATP
Clorexidina e óxido de etileno
Ação em enzimas com grupos –SH
Óxido de etileno, glutaraldeído, peróxido de hidrogênio, hipoclorito e iodo
Ação sobre a permeabilidade geral da membrana
Álcoois, clorexidina e compostos de quaternário de amônio
Conteúdo celular, coagulação geral
Clorexidina, aldeídos e compostos de quaternário de amônio
Ribossomos
Peróxido de hidrogênio
Ácidos nucleicos
Hipocloritos
Grupos tióis
Óxido de etileno, glutaraldeído, peróxido de hidrogênio e hipoclorito
Grupos aminos
Óxido de etileno, glutaraldeído e hipoclorito
Oxidação geral
Hipoclorito

Essas são as informações iniciais para a escolha correta do esquema de limpeza e sanitização. Mas sabemos que há muito mais a ser considerado, como legislação, validação, eficácia etc. Isso fica para outros posts, para não ficar cansativo.

Até o próximo post!

Fontes:

UNITED States Pharmacopeia. 37ª ed. 2014
PINTO, T.J.A.; KANEKO, T.M.; PINTO, A.F. – Controle Biológico de Qualidade de Produtos Farmacêuticos, Correlatos e Cosméticos

quinta-feira, 8 de setembro de 2016

Ser um "contador de bactérias" ou um Microbiologista?


Enquanto elaboro um novo post técnico, faço uma pausa para reflexão.

Iniciei minha vida de laboratório em 2003, fazendo estágio em um laboratório terceirista. Estagiei por um ano e meio e consegui um estágio numa grande multinacional de alimentos. Mas fiquei nesta empresa por pouco tempo, logo fui chamada de volta ao antigo laboratório para uma vaga de analista. A escolha foi difícil, sair de uma multinacional tradicionalíssima e sonho de muitos profissionais para voltar a um laboratório pequeno. Mas eu encarei a volta, pois na multinacional provavelmente eu terminaria o estágio e teria que procurar emprego, dificilmente seria efetivada. Não por falta de capacidade, mas por falta de vaga. Como me disseram na época: “Aqui só se efetiva um estagiário se um analista morrer”.

Voltei e me tornei analista. Mas em questão de três meses tive outro desafio: a proposta de assumir a supervisão do setor no qual fui estagiária e mal esquentei o lugar de analista. Fiquei apavorada! Recém-formada (me formei em Biologia e em meu curso, os quatro primeiros anos eram para licenciatura e o 5º ano para o bacharelado, opcional. Comecei a cursar, mas logo parei). Relutei em aceitar, mas meu diretor convenceu-me. Trabalhei cinco anos como supervisora da área de Microbiologia, o laboratório com o maior número de ensaios da empresa. Confesso que olhando pra trás, não me considero uma excelente supervisora. Meu perfil é de analista, bancada, e um cargo de chefia te obriga a lidar com papéis e problemas. Mas tirei algo de muito bom desse período: o aprendizado, o jogo de cintura, a capacidade de resolver problemas que tiravam o sono.

Como era um laboratório terceirista, eu tinha a obrigação de saber de tudo um pouco: Farmacêuticos, Cosméticos, Descartáveis, Alimentos, Dispositivos médicos, Água... Conhecer legislação, compêndios, métodos, pois além de conduzir os ensaios, tinha que atender o cliente, tirar suas dúvidas e enfrentar uma auditoria por mês. Tinha que estar afiada para treinar minha equipe e solucionar tudo. Confesso que foi difícil, mas cresci muito como profissional.

Como supervisora, tive a oportunidade de conhecer muitos representantes comerciais, e um deles, logo no inicio me ensinou uma valiosa lição, que direcionou a maneira que eu conduzi minha carreira. Eis o que ele me disse:

“Na Microbiologia, existem os contadores de bactérias e os microbiologistas. O contador de bactéria acredita em tudo o que ele lê numa placa, num tubo etc. Simplesmente lê e anota o resultado. Já o microbiologista para, analisa, pensa se aquele resultado é verdadeiro ou se não foi um desvio analítico, uma contaminação no meio da análise. O que você quer ser? Uma contadora de bactéria ou uma microbiologista?”

Eu escolhi ser a Microbiologista. Meu trabalho não terminava no horário do expediente. Eu fiz cursos, li, pesquisei. Não estou dizendo que devemos esquecer nossa vida particular e só pensar no trabalho. Longe disso! Mas separar um tempo pra estudar e se atualizar é fundamental.

Outro ponto é o raciocínio, a investigação. Quando eu me via diante de um problema, eu não sossegava enquanto não encontrasse a solução. Pesquisava em livros, conversava com colegas (e nesse tempo não tinha grupo de whats pra me ajudar, era tudo no telefone, até em auditorias, eu aproveitava a experiência do auditor e trocava ideias com ele, para melhorar meus procedimentos e métodos, muitas vezes na cara de pau).

Ser microbiologista é ser um detetive, bem ao estilo Sherlock Holmes. Observar, conhecer o histórico do seu produto ou processo e desconfiar quando algo sai do padrão. Buscar informações. Hoje, a internet oferece um mundo de possibilidades, mas é preciso saber filtrar também. E estudar, fazer cursos, ler artigos, estar antenado às mudanças e se adaptar ao novo.

Por razões de força maior, estou fora da vida de analista há quase quatro anos. Mas isso não foi motivo para enterrar todo o conhecimento que acumulei. Lógico, passei um período me dedicando à minha saúde integralmente, mas quando a poeira baixou, voltei a estudar, por conta própria mesmo. E agora me dedico a ajudar outras pessoas, porque conhecimento não se guarda, ele deve ser compartilhado. É a minha maneira de contribuir para o aprimoramento dessa área que tanto gosto.

Meu recado aqui é esse: não sejam “contadores de bactérias”, tornem-se Microbiologistas. Não se rendam ao mais fácil. Aprendam com os erros, compartilhem esse aprendizado. Quem segue por esse caminho, com certeza será um profissional respeitado e deixara sua contribuição nessa área tão importante que é a de controle de qualidade. Isso vale pra qualquer profissional.

É isso. Estou elaborando um post técnico, um pouco mais complexo, por isso a demora. Mas logo estará aqui.

sexta-feira, 12 de agosto de 2016

Endotoxinas Bacterianas

No post de hoje, trago um texto sobre Endotoxinas bacterianas, escrito pela minha amiga Janaina Fernandes, Bióloga e Farmacêutica, que trabalhou muitos anos com esta análise e tem bem mais propriedade em escrever sobre o assunto do que eu. No laboratório terceirista em que trabalhamos, este ensaio não era realizado pela área de Microbiologia, da qual fui supervisora por 5 anos, havia um laboratório somente para a realização de ensaios de endotoxinas. A Janaina foi supervisora deste setor.

ENDOTOXINAS BACTERIANAS

Todos os produtos estéreis, sejam injetáveis ou não, bem como suas matérias-primas ou materiais envolvidos na fabricação ou embalagem dos mesmos, tem por obrigatoriedade a realização do ensaio de endotoxinas bacterianas.
A Farmacopeia Brasileira 5ª edição define: O teste de endotoxina bacteriana é usado para detectar ou quantificar endotoxinas de bactérias gram negativas presentes em amostras para qual o teste é preconizado.
Utiliza-se o extrato aquoso dos amebócitos circulantes do Limulus polyphemus ou do Tachypleus tridentatus preparado e caracterizado como reagente LAL.




1.TÉCNICAS ANALÍTICAS

Há duas técnicas com sensibilidades diferentes para este teste:
1. MÉTODO DE COAGULAÇÃO EM GEL: baseado na formação de coágulo ou gel (método semi-quantitativo)
2. MÉTODOS FOTOMÉTRICOS quantitativos que incluem:
O MÉTODO TURBIDIMÉTRICO, (baseado no desenvolvimento de turbidez após quebra de um substrato endógeno);
O MÉTODO CROMOGÊNICO (baseado no desenvolvimento de cor após quebra de um complexo peptídeo sintético cromógeno).
Qualquer um destes procedimentos pode ser realizado, a menos que indicado contrário na monografia da substância.

Nota: As quantidades de endotoxinas são expressas em unidades de endotoxina (UE) definidas - 1 UE é igual a 1 UI (unidade internacional).

2. ANÁLISE SEMI-QUANTITATIVA

No método de coagulação em gel, a determinação do ponto final da reação é feita a partir de diluições da substância sob teste em comparação direta com diluições paralelas da endotoxina padrão.

Para a realização desta técnica utiliza-se tubos apirogênicos, micropipetas, ponteiras estéreis apirogênicas, banho-maria ou bloco aquecedor.
Faz-se a curva de calibração diluindo-se o padrão conforme a sensibilidade do lisado utilizado. ¼ , ½, 1 e 2x a sensibilidade do lisado.
Resultado esperado: ¼ (-), ½ (-), 1(+) e 2(+).


Negativo: gel frouxo ou semelhante à água (líquido)
Positivo: gel duro (não se desfaz)

Nota: cuidado ao virar o tubo, não deixar bater para não desestabilizar o gel e gerar um falso negativo.

3. ANÁLISE QUANTITATIVA

Atualmente no mercado, existem diversas marcas e técnicas para a realização da analise quantitativa.
Alguns utilizam placas de fundo chato (Elisa), seja por turbidimetria (turvação) ou cromogênico (formação de cores) o intuito é o mesmo, dizer exatamente quanto de endotoxinas possui a amostra preparada. É uma técnica muito mais precisa, mas exige treinamento do analista.
Deve-se tomar cuidado no preparo da curva de calibração, pipetagem, e alguns deles, o tempo que se leva para colocar o reagente, pois tudo isso pode influenciar no resultado final.
Normalmente, os resultados ficam armazenados no software e é possível localiza-los posteriormente.

Nota: cuidado ao adicionar os dados no sistema, senão a chance de erros de resultado é grande. Deve-se colocar a diluição utilizada ou a concentração final, dependendo o tipo de produto e a forma de expressão do resultado (limite de endotoxinas dado pela monografia).

4.LIMITE DE ENDOTOXINAS E CALCULO DE DILUIÇÃO

O limite de endotoxinas de cada matéria-prima é dado em monografias específicas, seja a Farmacopeia Brasileira, Americana, Japonesa, Britânica, enfim...
Em alguns casos é dado por EU/mg, EU/mL, EU/mg.
Se eu tenho uma monodroga, ou seja, um produto acabado que possui somente um ativo, posso utilizar o mesmo limite da matéria-prima?
Sim. Pode sim, uma vez que somente tem um ativo e normalmente diluído em água ultrapura.
Agora vamos falar somente em situações já conhecidas. Em outro post falaremos em situações onde eu não conheço o limite ou polidrogas.
Devemos fazer o calculo da diluição utilizando a seguinte formula:
MVD = limite de endotoxinas
         Sensibilidade do lisado
Observação: fórmula usada para quando o limite de endotoxina do fármaco especificado na monografia estiver em volume (UE/mL)

Onde:   M: máximo
            V: valor
            D: de diluição
Ou
MVD = limite de endotoxinas . concentração da amostra
                          Sensibilidade do lisado

Exemplos:
1.     Água purificada – limite de endotoxinas: 0,5EU/mL
Sensibilidade do lisado: 0,125EU/mL

MVD = limite de endotoxinas = 0,5 EU/mL = 4 , ou seja, podemos diluir até 4x ou 1:4
                Sens. Lisado           0,125EU/mL
2.     Solução de furosemida 10mg/mL – limite de endotoxinas (FB): 3,6EU/mg
Sensibilidade do lisado: 0,125EU/mL

MVD: limite de endotoxinas . concentração da amostra = 3,6EU/mg . 10mg/mL = 288 x
                      Sensibilidade do lisado                                     0,125EU/mL


Mais uma vez espero que este post ajude à elucidar dúvidas quanto ao ensaio de endotoxinas. Deixem seus comentários, opinião ou dúvidas!

Até a próxima.



quarta-feira, 10 de agosto de 2016

Grow Promotion - Promoção de Crescimento em Meios de Cultura

Promoção de crescimento é um teste fundamental para o controle de qualidade dos meios de cultura utilizados na rotina laboratorial. Com ele podemos comprovar que o meio utilizado atende os requisitos à que se propõe e assegura o resultado final da análise.

No post de hoje, vou colocar de maneira sucinta como proceder corretamente com o teste de grow promotion, de modo a sanar possíveis dúvidas.

O que é Teste de Promoção de Crescimento?

É um teste que determina a adequação dos meios de cultura utilizados na rotina laboratorial e é usado por farmacopeias em todo o mundo. Verifica a capacidade que o meio tem em promover o crescimento microbiano.

A promoção de crescimento consiste em inocular organismos testes adequados ao tipo de meio.

Entende-se por organismo teste: Um conjunto de organismos teste deve conter micro-organismos com características estáveis, representativas de sua espécie e que sejam confiáveis para demonstrar o desempenho de um meio preparado no laboratório. Os organismos teste devem compreender as cepas que estejam facilmente disponíveis nas coleções de cultura de referência, porém cepas bem caracterizadas, isoladas no laboratório também podem ser incluídas.

Os organismos teste para cada meio pode incluir: 
  • Cepas positivas robustas com características típicas;
  • Cepas positivas que crescem fracamente (de uma natureza mais sensível);
  • Cepas não reativas bioquimicamente;
  • Cepas inibidas completamente.

Para os meios que não contêm indicadores ou agentes seletivos, o uso de uma cepa teste positiva simples, é adequado. Para os meios que contêm indicadores ou agentes seletivos, devem ser utilizadas cepas que demonstrem a função do indicador e seletividade. Para os meios complexos, como os adicionados de suplemento, cada lote deve ser verificado com as cepas que apresentem as características listadas acima.

Produtividade – Meios de cultura líquidos, semissólidos e sólidos devem ser inoculados com inóculos apropriados da cultura de trabalho dos organismos teste, utilizando um dispositivo adequado. Para métodos quantitativos a produtividade é a relação entre a contagem total de colônias no meio de cultura teste e contagem total de colônias no meio de cultura de referência.

Seletividade – Para a avaliação da seletividade em métodos quantitativos, utilizando dispositivos adequados e organismos teste definidos, um meio de cultura seletivo e um meio de referência são inoculados com inóculos apropriados dos organismos teste. Seletividade é a diferença entre a maior diluição, apresentando crescimento acima de 10 colônias, no meio de referência e a maior diluição, apresentando crescimento comparável, no meio teste.

Cuidado especial deve ser dado à seleção das amostras e organismos a serem avaliados nestes testes. Se organismos teste são utilizados na avaliação de meios não seletivos, os organismos escolhidos devem ser tão fastidiosos quanto àqueles para a qual o meio será utilizado rotineiramente. Recomenda-se que mais de um organismo teste seja utilizado para avaliar um determinado meio.

Para a avaliação de meios seletivos/diferenciais, devem ser escolhidos organismos que testem as características seletivas/diferenciais e de produtividade do meio. Meios líquidos podem ser avaliados utilizando organismos que devem crescer no meio e àqueles que devem ser reprimidos. Seguindo com uma incubação adequada, as concentrações devem ser determinadas para cada organismo teste. Um meio aceitável deve apresentar altas concentrações do organismo esperado e baixas concentrações do organismo reprimido. O desempenho de um novo lote deve ser similar ao lote controle. A avaliação de um meio sólido é realizada de uma maneira parecida.

Micro-organismos do grupo para qual o meio é designado devem ser recuperados, quantitativamente, quase comparado ao meio não seletivo. Organismos que devem ser reprimidos pelo meio, não podem se desenvolver ou devem ser fortemente reduzidos, ao se comparar com a enumeração do meio não seletivo.

Como escolher os organismos testes?

Metodologias (INCQS, AOAC) bem como as farmacopeias vigentes listam as cepas a serem testadas em cada meio recomendado em seus métodos como, por exemplo, o capitulo <61> da Farmacopeia Americana e o capitulo 5.5.3.1 da Farmacopeia Brasileira. Há uma tabela com a cepa, seu ATCC, o meio ao qual se aplica e o critério de aceitação.

Para alguns casos, além das cepas farmacopeicas, o analista pode utilizar micro-organismos “in house”, isolados ambientais do laboratório, fábrica ou outros. Para meios de cultura não farmacopeicos, pode-se tranquilamente utilizar os organismos que constam no certificado dos mesmos, bem como suas condições de incubação.

Quando e como realizar o teste de promoção de crescimento?

A promoção de crescimento deve ser realizada a cada lote produzido ou adquirido pronto. Assim o analista garante a qualidade de todos os ensaios conduzidos com estes meios. 
  • É importante usar suspensões padronizadas das cepas testes e utilizar técnica de manutenção de forma que o inóculo não ultrapasse 5 passagens do cultivo original. Cultivar cada micro-organismo (bactéria e fungo) separadamente.
  • Usar solução tampão cloreto de sódio-peptona pH - 7,0 ou solução tampão fosfato pH 7,2 para preparar as suspensões dos micro-organismos. Ao preparar a suspensão de esporos de A. brasiliensis, adicionar à solução tampão 0,05% de polissorbato 80.
  • Usar as suspensões dentro de 2 horas ou dentro de 24 horas se mantidas à temperatura de 2-8º C.
Para realizar o teste, é necessário preparar inóculos das cepas a serem utilizadas, numa concentração que não ultrapasse a contagem de 100 UFC/ml. É importante utilizar um ágar não seletivo como um controle ao testar meios líquidos. Isso garante que o meio líquido foi inoculado com < 100 UFC.

Com os inóculos preparados e em temperatura ambiente, inocular nos meios a serem testados. O uso de pipetas calibradas é fundamental.

Para meios líquidos, basta pipetar o inóculo no tubo e agitar para uma homogeneização. No caso dos meios em placa, o analista deve pipetar o inóculo na placa e espalhar o mesmo com o auxilio de uma alça de Drigalsky. Incubar os meios nas condições recomendadas para análise de rotina.  Sempre levar em consideração a condições ambientais exigidas pelas diferentes espécies. Use os indicadores para se certificar que os ambientes anaeróbicos sejam mantidos.

Critérios de aceitação

Para caldos de enriquecimento, basta que haja turvação após a incubação comparando com um branco (meio estéril). Já para ágar de contagem, é preciso avaliar a recuperação. Quando eu atuava em laboratório, o parâmetro aceito era de no mínimo 70% de recuperação. Hoje, os critérios mudaram. A farmacopeia brasileira aceita uma recuperação mínima de 50%. Já a farmacopeia americana orienta: “para meio sólido, o crescimento obtido não deve diferir por um fator maior que 2 a partir do valor calculado para um inóculo padronizado. Isso se traduz em uma recuperação de 50% -200%. Em outras palavras, se inocular 50 UFC de um inóculo padronizado, uma recuperação entre 25-100 UFC é aceitável”. Cabe ao analista ou as diretrizes do laboratório escolher o critério que lhe pareça melhor.

Já para os meios seletivos, o crescimento dos micro-organismos devem apresentar as características de coloração descritas nas especificações, por exemplo: no ágar MacConkey, as colônias de coliformes fecais devem crescer com a coloração rosa a avermelhada, enquanto que bactérias não fermentadoras não devem apresentar coloração. Em contrapartida, não deve haver crescimento de colônias Gram positivas, como Staphylococcus aureus, pois o ágar MacConkey possui um inibidor de crescimento para tais bactérias.

Compare o crescimento no novo meio de cultura com o crescimento no meio previamente aprovado.O crescimento deve ser "comparável“.Em paralelo realizar o controle do inóculo em ágar não seletivo: deve haver ≤ 100 UFC. Nenhum fator de 2 é necessário. Agar Cetrimide é um meio de cultura altamente seletivo. O principal agente seletivo é a cetrimida.. Age como um detergente de amônio quaternário (QAC) e detergente catiônico. Inibe bactérias Gram-positivas e algumas Gram-negativas. É inibitório para Pseudomonas sp. mas não deve ser para P. aeruginosa. O Agar Cetrimide tende a ter um desempenho melhor se não for muito fresco (2 a 3 semanas após a fabricação). Executar teste paralelo no TSA demonstra conformidade (<100 UFC no TSA). A USP não limita o volume utilizado para o inóculo.

As recomendações são para executar uma validação completa do fornecedor de meio de cultura..Os resultados entre 2 fabricantes podem ser significativamente diferentes: os Auditores recomendam ter 2 fornecedores, para evitar qualquer atraso ou problema de qualidade..Três lotes de meios de cultura para teste. E se não houver lote previamente aprovado? Considere vários técnicos. Use um número significativo de replicatas. A média das médias pode ser considerada como ponto de referência.

Esterilidade dos meios

Uma quantidade adequada de cada lote deve ser testada para verificar possível contaminação microbiana, através da incubação sob condições apropriadas, antes do uso ou em paralelo com a utilização do meio de cultura. Limites para a porcentagem de placas, tubos ou frascos com meio líquido, devem ser estabelecidos para cada meio, ou especificados pelo fabricante. “Para todos os meios confeccionados, colocar no mínimo 10% do lote preparado na estufa 35 ± 1°C por 24 horas para o controle de esterilidade.”  Esterilidade Meios de cultura líquidos ou meios de cultura seletivos podem apresentar algumas dificuldades, devido à inibição de microrganismos. A contaminação pode não estar evidente visualmente, em forma de turbidez ou formação de colônia. Esta ocorrência pode ser superada através da transferência de uma porção do meio de cultura seletivo líquido para um meio de cultura não seletivo ou fazendo um swab da superfície da placa e incubando o swab em um meio não seletivo. “Não deve haver mudança de cor e nem crescimento de qualquer colônia.” 

Mais uma vez reforço a importância de documentar os dados obtidos. É um como um mantra em controle de qualidade. É imprescindível um POP que descreva como a promoção de crescimento deve ser realizada e documentada. Garante a rastreabilidade e não gera dúvidas em auditorias.

Espero que este post esclareça duvidas básicas. Deixem seus comentários! Afinal, o blog está aberto à discussões e melhorias.

Fontes:

brasil, ANVISA. Farmacopeia Brasileira 5ª ed. 2010
UNITED States Pharmacopeia. 37ª ed. 2014
PDS HPPC. Guia de Microbiologia 1ª ed. 2015 
Apresentação: Importância do Controle de Qualidade dos Meios de Cultura aplicados à Indústria Farmacêutic Ministrado por Leticia Dias - Workshop Unifar sobre meios de cultura